Brasil ignora o cinto no banco de trás — e isso mata quem vai na frente
Câmeras de IA em rodovias paulistas expõem um hábito perigoso que persiste mesmo entre os mais escolarizados.
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Quando as câmeras com inteligência artificial entraram em operação na rodovia Raposo Tavares, na entrada de São Paulo, em agosto deste ano, a expectativa era flagrar motoristas no celular. O resultado surpreendeu: segundo o Jornal do Carro (Estadão), das 2.316 multas aplicadas no primeiro mês, 1.386 foram por falta de cinto — 779 envolvendo motoristas e 607, passageiros. Na região de Ribeirão Preto, um único radar do mesmo tipo registrou cerca de 20 mil infrações entre julho e novembro do ano passado; 17 mil eram de cinto, e apenas mil, de celular.
O problema, porém, tem endereço certo. O sociólogo Eduardo Biavati, especialista em segurança viária, explica ao Jornal do Carro que o uso do cinto na frente já supera 90% no país. "O nosso problema era e continua sendo o baixo uso do cinto de segurança pelos passageiros do banco traseiro", afirma. A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, do IBGE, confirma o desequilíbrio apontado pela reportagem: 79,7% dos brasileiros diziam usar sempre o cinto no banco dianteiro, mas apenas 54,6% repetiam o hábito atrás. Entre jovens de 18 a 29 anos, esse índice caía para 44,7%.
A psicóloga Alessandra Sant'Anna Bianchi, da Universidade Federal do Paraná, diz ao Jornal do Carro que a raiz do problema está na percepção distorcida do risco. "As pessoas podem saber repetir que o cinto salva vidas, mas não reconhecem que isso pode acontecer em situações cotidianas ou que não depende da habilidade do condutor", explica. Um estudo observacional da equipe dela na UFPR revelou que mesmo universitários — com acesso à informação — apresentavam taxas de uso consideradas baixas pelos pesquisadores. As justificativas coletadas em pesquisas americanas, citadas pelo Jornal do Carro a partir do Journal of Safety Research, são banais: achar o banco traseiro seguro, esquecer ou considerar o trajeto curto demais.
A física, no entanto, não perdoa a ilusão de segurança. Como destaca o Jornal do Carro, em uma batida frontal o passageiro sem cinto continua em movimento na velocidade que o veículo tinha antes do impacto — e o único obstáculo à frente é o banco e a pessoa sentada nele. O resultado pode ser fatal para quem vai na frente, mesmo que esse motorista esteja devidamente cintado.
Fontes
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